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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Coreia do Norte é 'perigo real', diz Obama em SP

Ex-presidente dos EUA é o principal palestrante do Fórum Cidadão Global

Ex-presidente dos EUA, Barack Obama faz discurso em São Paulo - Reprodução

— Em São Paulo, o ex-presidente dos EUA 
Barack Obama criticou nesta quinta-feira a ascensão do populismo e da xenofobia no mundo, em discurso marcado por forte defesa da pluralidade e da democracia. Falando a líderes empresariais sobre a importância da construção da cidadania global, ele é o principal palestrante do Fórum Cidadão Global, organizado pelo jornal "Valor Econômico" com o Banco Santander e a AAdvantage. Além disso, pediu que os governos trabalhem para diminuir a diferença entre ricos e pobres e alertou para os riscos trazidos pela disseminação de notícias falsas pela imprensa e pelas redes sociais — citando as eleições americanas do ano passado, em que houve ampla circulação de rumores falsos, inclusive sobre a democrata Hillary Clinton, apoiada por Obama.

— Vemos o aumento da xenofobia e do populismo da extrema-direita ou da extrema-esquerda. Contrapor "eles" a "nós" não é a direção certa. Precisamos abraçar a tolerância, o estado de direito e o pluralismo para realmente avançar — disse o ex-presidente, antes de pedir mais igualdade econômica dentro e fora do seu país de origem. — Temos que trabalhar para diminuir a diferença entre ricos e pobres.


DEFESA DA IMIGRAÇÃO E PLURALIDADE

No discurso, o ex-presidente ainda defendeu a importância da migração ordenada para um país, em termos sociais e econômicos, incluindo os Estados Unidos — onde seu sucessor, o republicano Donald Trump, tem promovido sua agenda contra a chegada de imigrantes. Em uma era tão conectada, considerou que o futuro está na mistura de pessoas com diferentes experiências de vida. E ressaltou que isso inclui o bom acolhimento de imigrantes.

— Precisamos ter um senso renovado de ter pessoas de diferente culturas, que são diferentes de nós. Brasil e EUA compartilham uma história multirracial. Às vezes, uma história dolorosa. Minha esperança é que aqui no Brasil e nos EUA vejamos isso como um tipo de fortalecimento — disse Obama. — Diferentes experiências fazem um país avançar. É o futuro. E isso inclui, aliás, ser aberto a imigrantes.


Após discursar, o ex-presidente respondeu a perguntas feitas pelo diretor-geral de Mídia Impressa do Grupo Globo, Frederic Kachar. Para o democrata, a política em Washington hoje falha em construir pontes entre diferenças, o que ameaça a democracia e pode fortalecer movimentos autoritários:

— O que gostaria de sempre apontar é que a democracia é a melhor forma de governo que já foi inventada pelo homem, porém é difícil. Exige trabalho e investimento de cada um de nós neste processo. Exige que sejam informados e participemos e, na verdade, o progresso é frágil e não se move em linha reta. Não podemos garantir que os EUA sempre poderão melhorar se não fizerem um esforço, assim como o Brasil. Também não sabemos se a democracia estará aqui para ficar se vocês não fizerem investimentos — disse o ex-presidente.

Democrata respondeu perguntas no Fórum Cidadão Global em São Paulo - Reprodução
LIÇÕES E ARREPENDIMENTO DA PRESIDÊNCIA

Obama reconheceu que a crise econômica que marcou o início do seu governo dificultou o alcance do seu objetivo de eliminar divisões e diferenças da sociedade americana, então frustrada e assustada pelas condições adversas:

— Meu maior arrependimento é não ter conseguido unir as diferenças que estavam emergindo em nossa política tanto quanto quis. E isso, em parte, porque quando assumi o cargo, havia uma crise econômica muito ruim. E as pessoas estavam assustadas. Ainda que tenhamos respondido com êxito e evitamos o que poderia ter sido uma depressão profunda, aconteceu que as pessoas estavam frustradas e foram para dois cantos diferentes.

Fazendo um balanço do seu governo, ressaltou a importância do chamado "Obamacare", plano que reformulou o sistema de saúde nos EUA, e do acordo nuclear com o Irã, firmado com base em diplomacia. Estes são considerados marcos dos seus oito anos de mandato que, agora, se veem ameaçados pelas tentativas do atual presidente americano, Donald Trump, de reverter seu legado. Obama destacou que, como presidente, aprendeu que a solução dos problemas mundiais não está na falta de capacidade dos governos mas, sim, nas debilidades das interações sociais:

— Aqui vai o que aprendi como presidente dos Estados Unidos, você tem um bom assento para ver o que acontece no mundo: a maioria dos problemas que temos, seja nos EUA, Brasil, Nigéria, Vietnã, Alemanha, a maioria dos problemas não é porque não sabemos o que fazer, não é técnico. O problema que enfrentamos é que nossas políticas, arranjos sociais e interações nos impedem de fazer o que precisamos fazer.


ALERTA SOBRE 'FAKE NEWS' E TECNOLOGIA

Depois, argumentou sobre a importância da diversidade da imprensa para a política e alertar para o risco da disseminação de notícias falsas:

— Porque as notícias falsas nas eleições dos EUA eram tão fortes? Porque quando alguém que já não gostava da Hillary Clinton lia um rumor ou boato sobre ela, colocava isso na sua página do Facebook. E isso seria lido por outras pessoas. Acho que um desafio que teremos será encontrar formas de unir as pessoas, não para que concordem em tudo mas sim sobre qual é o problema — argumentou, dizendo que há pouca diversidade na imprensa de massa nos Estados Unidos: — Se eu assistisse à Fox News, não votaria em mim mesmo...porque não me reconheço (ali).

Obama também argumentou que o mundo hoje está mais rico e seguro, e que os jovens têm mais chances de viver uma vida melhor do que há 20, 50 ou 100 anos. No entanto, ponderou que os avanços tecnológicos têm transformado a atuação de instituições políticas pelo mundo.

— De fato, acredito que estamos em um momento no qual as mudanças tecnológicas têm avançado muito mais rápido do que nossas instituições políticas conseguem absorver. Isso faz pessoas nos países pelo mundo sentirem que não estão no controle.


Além disso, repetiu que investir em educação é necessário para que qualquer país prospere, independentemente de sua disponibilidade de recursos. Ele destacou que alcançar as crianças na primeira infância é essencial para criar pensadores desde cedo. E enfatizou a necessidade de ampliar o envolvimento de jovens à política através da educação:

— Se estou aconselhando qualquer nação, então, o primeiro trabalho é garantir que esteja estabelecendo um sistema educacional que seja universal, que busque alcançar toda criança e que seja adaptado às realidades de uma economia em rápida evolução tecnológica.

COREIA DO NORTE E IRÃ: SAÍDA PELA DIPLOMACIA

Obama citou a tensão entre EUA e Coreia do Norte, país que classificou de "um perigo real", pedindo o fortalecimento da diplomacia para lidar com suas ameaças nucleares, sem uso exclusivo de forças militares:

— Não podemos apenas resolver problemas com tanques e aviões. Tenho muito orgulho de que os EUA tenham o Exército mais poderoso do mundo, e precisamos disso — afirmou Obama. — A Coreia do Norte representa um perigo real e, por isso, temos que manter alianças fortes no mundo todo. Mas, para fazer isso, temos que compreender que nossa segurança não depende apenas do aparato militar, mas de diplomacia forte. O poder dos nossos ideais também tem um papel muito importante para garantir a paz e não apenas o poder militar extraordinário. Precisamos ter certeza de que entendemos como criar tipos de cenários de esperança ao invés de ciclos de medo que vemos espalhando em várias regiões no mundo.

Para argumentar sobre a importância de uma diplomacia forte, Obama comparou a crise com o regime asiático ao desafio do seu governo em lidar com as ameaças do Irã — Washington e Teerã firmaram um histórico acordo nuclear que, agora, Trump sinaliza que poderá reverter. Explicou que, embora os dois países ainda cultivem suas diferenças, conseguiram resolver as tensões sem "nem mesmo um disparo".


— No Irã, um país com o qual os EUA têm muitas diferenças e que, francamente, em determinado momento exportou problemas para o mundo... O atual governo não é um amigo constante dos EUA. Mostramos que se aplicássemos pressão econômica suficiente, mas também déssemos incentivo para negociar, talvez conseguiríamos resolver o uso da força militar. E isso levou sete anos para acontecer. Esse problema em particular foi resolvido sem um disparo de tiro.

Esta é a segunda vez que Obama vem ao Brasil. Em 2011, quando ainda era chefe da Casa Branca, visitou Rio e Brasília com sua mulher, Michele Obama, e as suas duas filhas, Malia e Sasha Obama. Na ocasião, se reuniu com a então presidente do Brasil, Dilma Rousseff.


A abertura do evento foi feita pelo vice-presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho, e pelo presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial. Robert Salomon, premiado professor da Stern School of Business da New York University, foi outro dos palestrantes do fórum, antes de Obama. A ideia do evento é debater e divulgar as variadas ferramentas que os líderes da sociedade civil podem usar para estimular a cidadania, em um cenário de rápidas mudanças no mundo, e discutir como a tecnologia, as empresas, a mídia e os indivíduos têm papéis a desempenhar na formação da consciência comunitária e na construção de um futuro melhor.

Barack Obama e família visitam a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, em passagem pelo Brasil em março de 2011Foto: JASON REED / Reuters





O Globo

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