Parlamentares, que receberam R$ 4,1
bi em emendas nos últimos dias, barram envio de acusação da Procuradoria-Geral
da República por corrupção passiva ao STF
![]() |
| Tumulto durante discussão da denúncia contra Michel Temer na Câmara - 02/08/2017 (Evaristo Sá/AFP) |
Após uma intensa
ofensiva nos últimos dias junto aos deputados, o presidente Michel Temer (PMDB) conseguiu
que a Câmara dos Deputados negasse por 263 votos a 227 a
autorização para que fosse encaminhada ao Supremo
Tribunal Federal a denúncia contra ele por
corrupção passiva, feita pela Procuradoria-Geral da República.
Com a rejeição, o peemedebista só poderá ser processado por essa acusação agora
quando não estiver mais no cargo, a partir de janeiro de 2019.
Em
uma sessão
que começou às 9h e se arrastou durante todo o dia por causa de uma guerrilha travada
pela oposição, que tentava impedir a votação ou ao menos adiá-la para o início
da noite – quando os governistas teriam de se expor em horário nobre na TV- , o
prosseguimento da tramitação da denúncia foi rejeitado no início da noite. O
número mínimo de votos para a denúncia ser rejeitada foi alcançado logo depois
das 20h.
O
principal argumento usados por aqueles que votaram a favor do relatório do
deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), que recomendou o arquivamento da denúncia,
era garantir a recuperação econômica, inclusive dando andamento às reformas
propostas por Temer – além da trabalhista, já aprovada, o governo deve enviar
as da Previdência e tributária. Outros argumentos foram a necessidade de dar
estabilidade política ao país e a suposta fragilidade da acusação apresentada
pela PGR.
O governo jogou pesado durante os últimos
dias para garantir o mínimo de votos necessários para barrar a denúncia. A
principal arma foi a liberação desenfreada de emendas para atender interesses
paroquiais de deputados. Entre junho, quando a acusação da PGR chegou à Câmara,
e julho, R$ 4,1 bilhões saíram dos cofres do governo federal para os
parlamentares – no restante do ano, a liberação tinha sido de apenas R$ 102,5
milhões. O uso de emendas para conquistar deputados prosseguiu inclusive
durante a sessão, com o ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy,
negociando pessoalmente, dentro do plenário, o atendimento às demandas dos
parlamentares.
Temer
também exonerou dez ministros que são deputados federais para que eles
reassumissem os seus mandatos para votar contra o prosseguimento da denúncia –
três do PMDB (Max Beltrão, Leonardo Picciani e Osmar Terra), dois do PSDB
(Bruno Araújo e Imbassahy), um do DEM (José Mendonça Filho), um do PSB
(Fernando Bezerra), um do PV (José Sarney Filho), um do PTB (Ronaldo Nogueira)
e um do PR (Maurício Quintella)
A sessão
foi marcada por troca de acusações e houve ao menos um momento em que
parlamentares quase se agrediram no plenário quando Paulo Pimenta (PT-RS)
falava e foi chamado de “babaca”. Na sequência, Wladimir Costa (SD-PA), o deputado
que ficou célebre após tatuar o nome de Temer no ombro, passou a girar dois
“Pixulecos”, bonecos de Lula vestido como presidiário – a oposição foi para
cima e rasgou os dois bonecos.
Logo depois, Carlos Zarattini (SP), líder do PT na
Câmara, passou a jogar para o alto dinheiro falso que a oposição havia levado
em malas para simbolizar a mala com 500 mil reais com a qual o ex-assessor
especial de Temer Rodrigo Rocha Loures foi
flagrado correndo em São Paulo após encontro com Ricardo Saud, diretor da JBS – para a PGR,
o volume era para Temer.
A narrativa
Segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot,
autor da denúncia, Joesley Batista se
encontrou com Temer no dia 7 de março no Palácio do Jaburu, depois das 22h, fora
da agenda, no porão do prédio, para tratar de assuntos de interesse do
empresário, que gravou a conversa. O áudio foi entregue à PGR como parte de um
acordo de colaboração premiada firmado por ele com o Ministério Público Federal
– sua divulgação colocou Temer no centro do escândalo.
Ainda de
acordo com Janot, Temer indicou Rocha Loures como seu representante para
tratativas futuras com Joesley. Nos dias 13 e 16 de março, o empresário e o
ex-assessor do presidente se encontraram para tratar de uma pendência
envolvendo uma empresa de gás de Joesley que enfrentava problemas com o Cade
(Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Para resolver a questão, os dois
teriam acertado uma propina que poderia chegar a 38 milhões de reais – a mala
com 500 mil reais teria sido, segundo a PGR, o pagamento da primeira parcela do
acordo.
Temer
ainda deve ser alvo de outras denúncias por Janot embasadas nas provas e
indícios levantados na delação da JBS. Havia a expectativa de que o
procurador-geral da República apresentasse mais duas acusações – por lavagem de
dinheiro e obstrução de Justiça -, mas ele pode juntá-las em uma só peça. A
nova denúncia teria que passar pela mesma tramitação da acusação rejeitada
pelos deputados nesta quarta-feira.
No Planalto
Temer
passou o dia no Palácio do Planalto. De manhã, recebeu vários ministros –
Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações), Henrique
Meirelles (Fazenda), Eliseu Padilha (Casa Civil) e Dyogo Oliveira
(Planejamento) – e os governadores do Rio Grande do Norte, Robinson Faria
(PSD), e do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), além de deputados. Na parte da
tarde, a agenda ficou vazia para que ele pudesse acompanhar a sessão na Câmara.
![]() |
| O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) puxa e tenta furar com os dentes o pixuleco que estava com o deputado Wladimir Costa (SD-PA) (Pedro Ladeira/Folhapress) |
Veja


Nenhum comentário:
Postar um comentário