Investigação apontou indícios de que a edição da MP
471 envolveu pagamento de R$ 6 milhões que seriam destinados ao PT. Defesa do
ex-presidente diz que não cometeu ato ilícito.
A Polícia Federal indiciou o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, suspeito de corrupção passiva em um
novo inquérito da Operação Zelotes – na parte da investigação que trata
da suposta compra de medidas provisórias.
A investigação
conclui também pelo indiciamento de mais 12 pessoas , entre elas os
ex-ministros Gilberto Carvalho e Erenice Guerra e os empresários Carlos Alberto
de Oliveira Andrade, da empresa Caoa, e Paulo Ferraz, ex-presidente da
Mitsubishi. Os indiciados negam as acusações (leia mais abaixo). O indiciamento significa que a
polícia concluiu que há indícios de prática de crime – se considerar que as
provas coletadas no inquérito são suficientes, o Ministério Público apresenta
denúncia à Justiça.
A investigação é sobre a edição da MP 471, a chamada MP do Refis, que estendeu a vigência de incentivo fiscal às montadoras e fabricantes de veículos instalados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O incentivo seria extinto em 31 de março de 2010 , mas foi prorrogado até 31 de dezembro de 2015.
A PF analisou
novas provas colhidas com lobistas investigados na Zelotes. São anotações de
reuniões, trocas de e-mails e encontros de Lula com o lobista Mauro Marcondes –
a quem Lula conhece desde os tempos de sindicalismo, segundo o relatório.
Segundo o
relatório de indiciamento, as tratativas envolvendo suspeitas de corrupção
nesse caso começaram em junho de 2009, quando Lula era presidente. E que novas
anotações analisadas na investigação mostram indícios de que a edição da MP 471
envolveu pagamento de R$ 6 milhões que seriam destinados ao PT.
“Cabe destacar
o destino dos R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais), que segundo o documento
seria “SEIS MI (PARA A CAMPANHA)”, ou seja, o valor seria para abastecer
campanha de Partido Político, provavelmente por meio de “caixa 2”, a exemplo do
que foi muito observado e comprovado ao longo das investigações da “Operação
Lava Jato”, diz o texto do relatório.
O relatório, ao
qual a TV Globo teve acesso, conclui que existem “ indícios suficientes de
materialidade e autoria do crime de corrução ativa, pelas negociações e
oferecimento de vantagem indevida, quando da edição da MP 471/2009, por parte
do consórcio SGR / Marcondes e Mautoni e das empresas automobilísticas CAOA e
MMC Automotores do Brasil, ao então Secretário-Geral da Presidência da
República, GILBERTO CARVALHO e ao ex-Presidente LUIZ INACIO LULA DA SILVA, em
benefício do Partido dos Trabalhadores".
O relatório diz
ainda que há anotações com as inscrições “PRES.” E “G.C”, com o escrito “OK”
logo acima, seguido da inscrição que aparenta ser “COM MAURO/MARCONDES”, o que
sugere que o contato ou acerto com o ex-Presidente LULA (PRES.) e GILBERTO
CARVALHO (G.C.) ficou a cargo de MAURO MARCONDES e que estaria “OK”.
O inquérito foi
aberto em novembro do ano passado. É desmembramento da investigação da Zelotes
sobre suposto pagamento de R$ 45 milhões para o ex-senador Gim Argello e para
os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, ambos do PMDB (R$ 15 milhoes para
cada) aprovarem medidas provisórias a fim de beneficiar algumas empresas do
setor automotivo com incentivos fiscais. É o aprofundamento das investigações
autorizado pelo juiz federal de Brasília, Vallisney de Souza.
Indiciados negam
Procurada pelo G1, a assessoria da defesa do ex-presidente informou
que os advogados de Lula não conhecem o documento da PF e reafirmam que o
ex-presidente não cometeu nenhum ato e ilícito e que isso faz parte do
"lawfare", que "consiste na utilização da lei e dos procedimentos
jurídicos como verdadeiras armas de guerra para a obtenção ou bloqueio de
resultados políticos".
O ex-presidente Lula sempre negou as acusações. Em
janeiro do ano passado, por exemplo, ele prestou depoimento à Polícia Federal e
disse que uma eventual combinação do teor de uma medida provisória é
"coisa de bandido" e declarou que nunca recebeu lobistas nem
vantagens indevidas enquanto exerceu a Presidência.
O G1 também procurava a defesa de Erenice Guerra. Em
dezembro de 2015, ela negou, em depoimento à PF, envolvimento no
suposto de esquema de compra de medidas provisórias. Segundo a defesa, Erenice
esclareceu à polícia que MPs chegam à Casa Civil com parecer prévio dos órgãos
e ministérios que as encaminham.
Ao prestar
depoimento na 10ª Vara Federal de Brasília, em janeiro do ano passado, Gilberto Carvalho chamou de "absurda" a
investigação da Operação Zelotes que aponta compra e venda de medidas
provisórias nos governos do PT.
O G1 também buscava contato com a defesa do
ex-ministro até a última atualização desta reportagem, assim como com as
defesas do empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, da empresa Caoa, e
Paulo Ferraz, ex-presidente da Mitsubishi.
Outro caso
O ex-presidente
Lula é reu em ação penal da Zelotes acusado de beneficiar empresas entre 2013 e
2015, quando já tinha deixado a Presidência.
Nesse caso, ele
responde ação penal relacionada a uma outra medida provisória, a MP 627, que
que extinguiu o Regime Tributário de Transição (RTT) e passou a tributar todo o
lucro apurado de empresas coligadas e controladas de multinacionais brasileiras
no exterior.
Em troca, diz a
denúncia, os lobistas Mauro Marcondes e Cristina Mautoni teriam repassado cerca
de R$ 2,5 milhões a Luis Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente. Segundo
relatório da Polícia Federal, não houve prestação de serviço pela empresa do
filho de Lula.
A PF diz também
que o material produzido pela empresa era cópia de material disponível na
internet.
G1/Política
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