Os paraenses estão entre as principais vítimas de crimes no País. Cerca
de três em cada 10 moradores do Estado, ou 35,5% da população, dizem ter sido
vítimas nos últimos 12 meses de crimes como roubos, furtos, agressões ou ofensa
sexual. É a segunda maior proporção do País, atrás, apenas da marca registrada
no Amapá (46%), segundo a primeira Pesquisa Nacional de Vitimização, divulgada
ontem pela Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça,
em parceria com o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o
Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, da Universidade Federal
de Minas Gerais, e o instituto Datafolha. Em todo o Brasil, essa média foi de
21% (14,5 pontos percentuais abaixo do índice paraense).
Quando questionados se já foram vítima de qualquer crime alguma vez na
vida, essa margem no Pará chega quase a metade da população (44,2%) - novamente
um dos maiores índices do País, superado somente pelos indicadores do Amapá
(55,6%) e do Rio Grande do Norte (44,3%). A proporção nacional, novamente ficou
bem abaixo: 32,6%. Os habitantes de Belém também surgem como uns dos mais
ameaçados pelos crimes. Dentre os entrevistados, 41,1% foi vítima nos últimos
12 meses e 49,5% pelo menos uma vez na vida. Os percentuais só foram superados
pelos de Macapá, que registrou 56,6% e 47,1%, respectivamente.
A pesquisa englobou 12 tipos de ocorrências em que pode ser feito o
registro policial: furto e roubo de automóveis, furto e roubo de motocicletas,
furto e roubo de objetos ou bens, sequestro, fraude, acidente de trânsito,
agressão, ofensa sexual e discriminação. O questionário foi aplicado em 346
municípios, de junho de 2010 a maio de 2011 e em junho de 2012. Foram ouvidas
78 mil pessoas com 16 anos ou mais, sendo 2.516 deles no Pará (787 em Belém).
No geral, o Pará é o Estado do País com a maior parcela de pessoas com
objetos roubados nos últimos 12 meses, como celular, dinheiro, bicicleta e
relógio. A proporção é de 10,5%, enquanto a média nacional foi de 3,6%.
Considerando qualquer época da vida do entrevistado, a proporção de paraenses
com objetos roubados chega a 35,5%. Os números também assustam em relação ao
roubo de outros bens. O estudo aponta que 3,8% dos proprietários de carros,
caminhões e caminhonetes do Estado foram vítimas de assalto no ano da pesquisa.
Outros 6,2% tiveram suas motos roubadas, 3,7% sofreram ofensa sexual e 10,8%
foram vítimas de fraudes e estelionatos no mesmo período. Os moradores do
Estado também apresentaram um dos mais altos índices do País de casos de algum
tipo de discriminação: 17,8%.
O levantamento mostra, no entanto, que somente 23,7% das vítimas
procuraram a polícia para registrar as ocorrências. Em Belém, que aparece como
a segunda capital mais insegura do País, com margem de 68% da população com
medo de ser assaltada, o índice de pessoas que procuram a polícia foi apenas 27,1%.
O baixo percentual está associado a confiança da população com a polícia. Só
8,9% dos paraenses dizem confiar muito na Polícia Militar - segunda pior média,
atrás do Amazonas, com 8,4%. No caso da Polícia Civil, esse percentual alcança
apenas 9% da população. Resultados inferiores só foram observados em Roraima
(6,5%) e Amazonas (7,4%).
Uma parcela de 72% ainda acusa a Polícia Militar de abusar do uso da
força e de sua autoridade (2º maior do País) e 25% condenam como ruim ou
péssima a abordagem da polícia em blitz e revista pessoal (3º maior). A
população do Pará ainda é a quarta no ranking nacional que mais condena a
apresentação pessoal dos policiais como a maneira de se vestir e falar (20%).
Outros 5,2% também afirmaram terem sido vítimas de extorsão ou que foram
obrigados a pagar propina.
Preocupante
A secretária nacional de Segurança Pública do Ministério da
Justiça, Regina Miki, disse que considera "preocupantes" os
resultados da pesquisa, embora não os classifique como “surpresa”. “Para a gente
que está no dia a dia trabalhando com segurança pública, (isso) pode não
traduzir uma surpresa, mesmo porque temos outras pesquisas ligadas a essa
divulgada hoje, de vitimização. O que nos traz surpresa é que as pessoas não
fazem uso de alguns serviços que estão à disposição. Mas, sim, os números são
preocupantes”, afirmou a secretária.
Regina Miki disse que “falta confiança” da população nas polícias
e que "há dificuldade" no acesso das pessoas a delegacias em diversas
cidades. Segundo ela, as polícias precisam ter “independência política”.
“Primeiro de tudo, sobre o que pode ser feito, é a formação e a capacitação
continuada, para atender no dia a dia às demandas e aos interesses da sociedade
e depois fazer com que a polícia entenda que ela faz a defesa da sociedade, e
não do estado. A independência política das polícias é primordial”, disse.
A maior parte das ocorrências se deu dentro da casa do
entrevistado (38,3%) ou em suas proximidades, como a rua onde mora (33,3%), o
bairro (14,9%) ou a garagem da residência (11,1%). Já roubo de objetos (49,5%),
sequestro (32,1%) e ofensa sexual (23,7%) acontecem com maior frequência em
lugares abertos. No local de trabalho, a maioria das vítimas relatou
discriminação (20,5%), agressão (15,3%) e furto de objetos (12,6%) e, na maior
parte das vezes, por um conhecido.
O medo de ser vítima de agressão sexual é maior entre as mulheres
(52,4%) que entre os homens (21,8%). Os mais jovens (43%) também temem mais
esse tipo de violência. Na vizinhança, metade dos entrevistados receia ser
vítima de bala perdida (52,0%) e estar no meio de um tiroteio (50,7%). Outros
34,3% têm medo de ser confundidos com um bandido pela polícia e 33,2%, de ser
vítimas de extorsão por parte da polícia.
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