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| Assassino e filha de vítima se tornam amigos décadas após crime |
Glen
Flett, um dos assaltantes, apertou o gatilho. Anos mais tarde, ele se
arrependeu. E fez contato com Margot. Desse primeiro gesto viria a surgir uma
extraordinária amizade. Falando, e às vezes chorando, os dois contaram sua
história ao programa Outlook, do Serviço Mundial da BBC.
"Desde
cedo aprendi que agir de forma violenta ou raivosa às vezes funcionava. Tive
meu primeiro contato com a polícia aos sete anos de idade. Estava com meu irmão
e meu primo; eram três anos mais velhos do que eu e tinham grande influência
sobre mim. Eles estavam invadindo uma casa, a polícia apareceu e nos
pegou", conta Glen.
"Quando
eu tinha nove anos, houve outro encontro."
Glen
diz que, dessa vez, foi agredido fisicamente. Dali em diante, conta, passou a
"odiar a polícia visceralmente".
"Meus
pais não viam essas coisas. Meu pai me amava e tentava esconder as coisas que
eu estava fazendo da minha mãe."
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| Metade de mim morreu quando meu pai morreu, diz Margot |
Aos
19 anos, Glen foi preso pela primeira vez.
"Fui
pego roubando de uma loja e, quando o segurança me pegou, puxei um canivete
suíço e o esfaqueei. Foi a primeira vez que fui preso. Eu tinha 19 anos."
Aos
22 anos, Glen se casou. Arrumou um trabalho, teve um casal de gêmeos - mas não
durou muito.
"No
dia em que meus gêmeos nasceram fui para a cadeia por assalto à mão
armada."
Segunda ensolarada
Em
1978, Glen e seu comparsa - um homem que ele havia conhecido na cadeia -
estavam morando em Toronto. Foi nessa cidade, no dia 27 de março, que Glen
cometeu o ato que mudaria para sempre sua vida - e também a de uma família
local.
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| Margot e Glen são amigos no Facebook e conversam regularmente |
"O
dia estava lindo, lembro muito bem. Vínhamos planejando esse assalto. Queríamos
roubar um entregador. O plano era derrubá-lo, pegar a sacola com o dinheiro e
fugir. Derrubamos o cara e saímos correndo pela escada rolante, empurrando as
pessoas que estavam em nosso caminho. Chegamos ao piso principal, corremos
pelos corredores."
"Uma
pessoa vinha correndo atrás de nós, gritando, 'parem esses caras'. Entramos em
uma loja cheia de araras com roupas. Naquele primeiro momento, não vi Sluytman.
Ele apareceu de repente, me segurou pelo colarinho e disse: 'Pare. Desista,
filho'."
Glen
mal consegue falar ao recordar esse momento.
"Meu
parceiro e eu… acho que nós dois, espontaneamente, atiramos nele."
§
Assassino de Campinas
atirou sozinho, mas não inventou assassinato de mulheres sozinho, diz filósofa
Glen
não soube, de imediato, que havia matado o pai de Margot.
"Ele
estava me segurando, mas quando foi alvejado, me largou. Então eu caí no chão.
Levantei e saí correndo."
Ele
e o parceiro correram para o carro e foram para o apartamento onde estavam
morando. Quando ligaram a televisão, ouviram a notícia de que um homem havia
sido morto durante um assalto.
Enquanto
Glen descreve aquele dia fatídico, Margot, a filha de Glen, escuta em silêncio.
Agora, emocionada, ela explica o que sente ao ouvir o depoimento.
"Sinto
a dor. E também sinto uma dor intensa por… (começa a chorar) por Glen. Porque
acho que deve ser muito difícil viver com essa dor."
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| Em 1978, quando Margot era adolescente, seu pai, Theodore, foi morto durante um assalto |
'Minha vida mudou'
Margot
começa a descrever como foi, para ela, o dia em que seu pai foi morto.
"Eu
estava em casa. Minha mãe trabalhava em casa; ela cuidava de crianças. Eu
estava no andar de baixo, brincando de professora com as crianças. Bateram na
porta da sala de brincar. Dois homens altos. Perguntei quem eram, o que estavam
fazendo ali. Disseram que eram policiais, então perguntei: 'Meu pai teve um
acidente de carro?' Aconteceu alguma coisa?"
"E
eles responderam: 'Não, ele foi morto hoje em um assalto'."
"Tínhamos
uns varais no andar de baixo. As roupas brancas do meu pai estavam penduradas
no varal. Olhei para as roupas e depois corri rápido para o andar de cima.
Minha mãe estava sentada no topo da escada. Ela chorava muito. Olhou para mim e
disse: 'Margot, papai. Morto'."
"Minha
vida mudou", conta Margot. "Metade de mim morreu quando meu pai
morreu."
"Éramos
muito próximos em nossa família. E eu e meu pai éramos muito próximos. Duas
semanas antes de ele morrer, tivemos uma grande discussão. Nós nunca
brigávamos. E tínhamos acabado de fazer as pazes. Eu tinha 16 anos."
Na
manhã em que foi morto, Theodore Sluytman estava de folga, conta Margot. Mas
foi à loja porque queria se preparar para uma liquidação. Era um ótimo
vendedor, ela explica. E ganhava comissão.
"Quando
ele estava descendo as escadas eu perguntei: 'Posso ir com você?' Ele olhou pra
mim e disse, 'Escute aqui, sua pestinha, vou sair por duas horas e já volto,
ok? Você fica aqui'."
"Eu
não falo muito sobre isso", diz Margot. "Acho que é a primeira
vez."
Luto
Enquanto
Margot vivia o luto pela morte do pai, Glen foi preso e condenado por
assassinato. Anos se passaram.
Na
prisão, Glen passou a praticar o cristianismo. Começou a refletir sobre a vida
que tinha destruído, o mal que causara, diz ele. Um dia, obteve permissão para
sair da cadeia e passar alguns dias com sua própria família.
Glen
relembra as visitas dos filhos pequenos.
"Meus
pais traziam meus filhos para me ver. Eles vinham; a casa tinha dois quartos.
Meus pais dormiam em um deles; eu e os meninos juntávamos as camas de solteiro
e dormíamos todos juntos."
"À
noite, enquanto eles dormiam, eu ficava acordado, pensando na sorte que tinha.
Sentia vergonha em pensar que alguém como eu podia viver isso, quando eu havia
tirado a vida de um outro", conta Glen, com a fala entrecortada por
soluços.
Margot,
por sua vez, precisou se distanciar um pouco da família. "Saí de casa três
meses após meu pai ser morto. Saí porque queria que me deixassem em paz. Para
poder pensar. A dor na minha casa era demais."
Margot
conta que sentia uma forte necessidade de conhecer a pessoa que matara seu pai.
"Eu
tinha de saber. Por que fizeram aquilo?"
E
Glen vivia atormentado pelo remorso.
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| Glen fez uma doação em apoio ao trabalho de Margot e recebeu um e-mail dela |
"Queria
que eles soubessem que eu compreendia a santidade da vida. E que eu não
entendia isso antes de tirar a vida de Sluytman. Mas agora eu chorava até cair
no sono às vezes porque eu sentia muito pelo que havia feito."
Quando
Glen saiu da cadeia, sua esposa, historiadora, descobriu onde estava a
sepultura de Sluytman.
"Fomos
visitá-la", ele conta. "Era tão bem cuidada. Doze anos mais tarde,
dava para perceber que a família visitava a sepultura com frequência. Ele não
tinha sido esquecido."
"Eu
procurei a polícia. E também o promotor do caso. Disse a eles que tinha mudado
a minha vida, que sentia muito (pelo que havia feito) e que gostaria de dizer
isso à família Sluytman."
No
entanto, Glen foi desaconselhado a procurar a família. Um dos policiais temia
que o contato trouxesse de volta a dor e as lembranças.
Contato
Anos
mais tarde, um amigo de Glen leu um artigo sobre Margot. Ela tinha crescido,
cursara universidade, era poeta e tinha acabado de ganhar um prêmio. Glen e sua
esposa decidiram fazer uma doação pela internet em apoio ao trabalho dela. A
doação foi feita anonimamente.
"Três
horas mais tarde, recebemos um e-mail", conta Glen.
"Você
é casada com o Glen Flett, o homem que matou meu pai na segunda-feira de
Páscoa, dia 27 de março de 1978?", dizia a mensagem.
"Fiquei
apavorado. Não sabia o que pensar", conta Glen.
Foi
assim que teve início um diálogo entre Margot e o homem que matara seu pai.
Em
resposta, a esposa de Glen escreveu: "Vimos o seu trabalho, não queríamos
fazer mal a você".
"Não
me fizeram mal. Vou mandar alguns livros para vocês", respondeu Margot.
"Você se importaria em pedir ao seu marido que me faça um pedido de
desculpas?"
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| Glen e Margot trocaram e-mails antes de se encontrar pessoalmente |
"Na
manhã seguinte, encontrei uma carta curta, respeitosa e simples me pedindo
desculpas. A partir daí, começamos a conversar. O que eu queria saber era: por
quê? E também quais tinham sido as últimas palavras do meu pai."
"Trocávamos
e-mails, eu tinha milhões de perguntas. Ele respondeu todas. No final, ele
disse que precisava me encontrar. Voei para British Columbia, onde Glen vive. E
nos encontramos."
"Não
sabia como ela era, mas eu conhecia Margot. Tínhamos uma conexão forte nos
nossos corações. Falei de coisas que eu sentia a respeito do que havia
acontecido, coisas profundas, que nunca havia dito a ninguém."
"Ela
saiu do carro e perguntou 'Glen Flett?' Nos abraçamos e começamos a chorar.
Conversamos e caminhamos durante uma hora e depois fomos para a minha casa,
onde ele conheceu minha filha, Victoria, que tem nove anos. Ela disse, 'Pai, é
tão estranho, ela tem um jeito tão parecido com o seu!'"
Paradoxo
Desde
então, Margot e Glen já se encontraram várias vezes.
Encontrar
Glen "me ajudou de uma maneira profunda", diz Margot. "Somos
muito amigos. Dizemos 'eu te amo' um ao outro. Sei que para algumas pessoas é
muito complicado ouvir isso."
De
fato. Perdoar, sim, dizem alguns. Mas amizade? Não acaba reabrindo a ferida?
"Não",
responde Margot. "É muito bonito. Porque é um paradoxo."
"(Aos
que perguntam por quê?) respondo: Porque é a coisa certa. É a coisa certa para
mim. É a coisa certa para Glen. Sinto que meu pai está sendo celebrado. Minha
mãe está sendo celebrada, os pais de Glen estão sendo celebrados. Toda a dor
deles não é em vão. Temos esperança. Amor. Possibilidades. E temos diálogo.
Falamos sobre a perda. Sinto gratidão."
BBC Brasil






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