Homens armados incendiaram dez veículos em importantes vias expressas da
cidade
Governador pediu reforço de policiais rodoviários e da Força Nacional
semana passada
| Grupo de pessoas saqueia caminhão no Rio. LUCIANO BELFORD (EFE) |
O Rio de Janeiro viveu
nesta terça-feira mais uma inusitada jornada de violência transmitida quase em
tempo real. Homens armados incendiaram ao menos oito ônibus e dois caminhões em
vias expressas da cidade, moradores saquearam caminhões e grupos de jovens
interromperam o trânsito tentando erguer barricadas. Era a resposta da maior
facção criminosa do Rio, o Comando Vermelho (CV), a uma mega operação policial que a
impediu de invadir uma favela rival. Tudo transmitido ao vivo pelas principais
emissoras locais e as redes sociais.
A operação da Polícia Militar começou cedo de manhã após a corporação
ser advertida de que criminosos do Comando Vermelho estavam tentando retomar o
controle de Cidade Alta, em Cordovil, uma favela do norte da cidade, dominada
pelo Terceiro Comando Puro. A ação da polícia, que terminou com a apreensão de
32 fuzis, 45 detidos –praticamente todos do CV– e dois mortos, foi considerada
um sucesso pelas autoridades. “Eu não me lembro, em 34 anos de polícia, uma
operação pontual com tantas apreensões de armas de fogo desse porte”, disse o secretario de Segurança Pública, Roberto Sá. O
secretário afirmou que a PM evitou um “banho de sangue” com a operação.
A resposta do tráfico para desviar a atenção da polícia e tentar
facilitar a fuga de traficantes não demorou a chegar e atraiu mais atenção que
a própria operação. De um presídio fora do Estado do Rio, a quadrilha mobilizou
traficantes que, armados, semearam o terror em vários pontos da cidade. Um
motorista de um dos ônibus incendiado contou a O Globo que
temeu virar “churrasco” durante o ataque. “Um deles disse: ‘você está demorando
muito, já mandei descer. Você quer morrer? Você vai virar microondas aí’. Jogou
a gasolina e tive que pular correndo”, contou Jorge Martins Filho, de 61 anos,
ao jornal. Segundo a Federação das Empresas de Transporte do Estado do Rio, os 50 ônibus queimados neste ano, com um custo de reposição de
22 milhões de reais, já superam os 43 incendiados em 2016 inteiro.
A Prefeitura chegou a declarar estágio de atenção –o segundo de três
níveis de alerta– após serem registrados cerca de 66 quilômetros de
congestionamentos. Os holofotes voltados aos incêndios irritaram o secretário
que repetiu em coletiva várias vezes que os ataques não poderiam ser
considerados mais importantes que a operação policial. As imagens dos ataques,
no entanto, não tinham como não impactar, apesar de o carioca ter naturalizado
a violência em sua rotina. Uma das transmissões em tempo real da GloboNews registrou um motorista abrindo o vidro
de seu veículo e atirando para cima com uma pistola, fazendo correr, assim, uma
multidão que saqueava um dos caminhões incendiados.
Após as ações criminosas que se estenderam durante horas, em avenidas
cruciais como a Washington Luiz ou a Avenida Brasil, enquanto eram transmitidas
na TV, o secretario Sá negou que tenha faltado estratégia para coibir os
ataques. “Não podemos diminuir o grau de violência da nossa sociedade e dizer
que a polícia tem que evitar isso tudo. Não podemos adivinhar o pensamento do
criminoso antes de cometer o crime”, disse.
Sá sim apontou, no entanto, a “escassez de recursos” da polícia do Rio e voltou a cobrar uma
mudança na legislação para punir mais severamente o porte de armas de guerra e
até o incêndio de ônibus. “A pena para alguém que porta fuzil na cidade é
ridícula e irrisória. A pena para incêndio é de três a seis anos, também
ridícula. A sociedade com valores e propósitos tem que impor a noção da punição
e outros poderes têm que dar instrumentos para a polícia. Já passou da hora de
o Brasil rever a legislação criminal, rever presídios e benefícios para quem
comete crime tão grave”, disse.
A estratégia do tráfico de queimar ônibus para desviar a atenção da
polícia não é nova, mas sim surpreendeu pela dimensão e espetacularidade dos
ataques que lembraram às imagens vividas em novembro de 2010, nas vésperas da
ocupação policial do complexo de favelas do Alemão. Na época foram orquestradas
pelo tráfico várias ações violentas e dezenas de ônibus foram incendiados.
A jornada desta terça-feira é mais um desafio para um Estado com sérias dificuldades financeiras, cuja falência
afeta diretamente à segurança pública. Com 4.000 policiais militares formados
que não podem ser integrados à corporação por falta de recursos, o governador
Luiz Fernando Pezão (PMDB) pediu ajuda federal, mais uma vez. Na semana passada,
independentemente dos ataques de hoje, Pezão reforço da Polícia Rodoviária
Federal e da Força Nacional, confirmou sua assessoria. “Toda ajuda é
bem-vinda”, afirmou Sá. “Mas, na minha humilde visão, o buraco é mais embaixo.
Precisamos de soluções estruturais e não paliativas”.
El País
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